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Amor às Kuartas

Aqui fala-se de amor às quartas-feiras

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Amor às Kuartas

31
Mai17

O banco de pedra debaixo da parreira

Kalila

desenho-de-gangorra-para-pintar-172x210 BALOIÇO.g

 

 

Sentada no baloiço tosco do pátio da tia, Cilinha fingia-se no carrossel da festa da aldeia. Ouvia-lhe a música, trazida pelo vento, quase sentia os cavalinhos a subir e a descer. 

A prima Idalina e o namorado Tomás lá estavam no banco de pedra debaixo da parreira. A namorar, como todos diziam, a conversar, pensava Cilinha. Que seria exatamente isso de namorar? Algo complicado de perceber, ainda mais por ter que estar presente, sem entender porquê.

- Cecília! - chamou a tia da janela.

Desceu do baloiço, deu uma corridinha e aceitou a ordem de lavar as mãos na torneira do tanque. Sacudiu-as depois, enxugou o resto ao vestido e aceitou o pão com manteiga que a tia lhe estendeu. Horas do lanche, era preciso comer mesmo sem vontade senão a tia ralhava, depois contava à mãe, depois a mãe ralhava também... O melhor era comer, evitavam-se chatices.

Porque é que os adultos não tinham que lanchar também? A tia ainda perguntou aos namorados se queriam alguma coisa mas nem esperou a resposta, saiu da janela e lá foi para dentro a ajeitar o avental como costumava fazer.

Cilinha foi comer o pão no vai e vem do baloiço. Tomás chamou-a à atenção:

- Cilinha, não se come a andar de baloiço, podes engasgar-te ou ficar mal disposta!

Já sabia isso mas tinha uma certa tendência para contrariar. Como foi o Tomás a dizer, desceu do baloiço e sorriu-lhe. 

Entre o baloiço tosco do pátio da tia e o banco de pedra debaixo da parreira havia uma distância de alguns metros, 15 anos de diferença da prima, um chão antigo de pedra e alguns vasos com plantas.

O Tomás estava "na tropa", a cumprir o serviço militar obrigatório, às vezes aparecia fardado, quase sempre de surpresa, e Cilinha era chamada para andar no baloiço ou para passear com eles. Num dia em que choveu muito, ficaram todos na janela da casa de jantar à espera que parasse. 

O tempo é que não parava. No ano seguinte Cilinha entrou para a escola. Foi aprender muitas coisas numa sala com um crucifixo e uma fotografia do Salazar. Passado um mês o Tomás foi "para fora", para o Ultramar, mais propriamente para a guerra de Angola, uma das "Províncias Ultramarinas", nome este justificado por "Portugal não ter colónias", segundo o que se aprendia na escola.

Mal o Tomás partiu voltou o primo Eduardo, no meio de uma grande festa, foram mortas muitas galinhas, convidaram o "Troncas" da concertina e estava também o Gaspar do saxofone, tocaram juntos e em separado. A razão da festa era o Eduardo "vir bem"...

O Tomás não veio bem, não veio mesmo, o Tomás desapareceu no mato depois de uma emboscada. Nunca apareceu nem vivo nem morto, dele só vieram notícias, avessas umas das outras, nunca se soube nada de concreto. Esperou-se e receou-se sempre um telegrama de condolências do Ministro do Exército mas tal nunca aconteceu. Passado muito tempo, o nome do Tomás apareceu nos jornais numa lista de "desaparecidos em combate" mandada publicar pelo Ministério da Guerra. A mesma informação nunca chegou à família nem à Idalina. 

A mãe doente e debilitada do Tomás não aguentou e morreu. O pai ficou meio louco e envelheceu numa instituição onde acabou por morrer.

Com 72 anos, o rosto da Idalina conserva ainda alguma beleza e uns olhos lindos, de um azul celeste e doce. Vive na casa que foi dos pais, onde já não há baloiço, onde tudo foi transformado e remodelado. Tudo menos o banco de pedra debaixo da parreira. A prima Cecília visita-a sempre que pode. Tomam chá, conversam, planeiam coisas e sentam-se no banco de pedra debaixo da parreira... onde esperam o Tomás... 

(Imagem Wikipédia)

wikipedia.jpg

Monumento aos combatentes

do Ultramar - Belém

                                                                        

 

 

6 comentários

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    Rita PN 31.05.2017

    Não é por acaso que eu ando a fazer investigação e a ouvir relatos verídicos para escrever o que já anuncei e que já no meu cantinho mostrei passagens... É exatamente para tirar de baixo do tapete o que ao longo de 50 anos tem sido ignorado. Ando a remexer de mais, talvez... mas... a censura já era!
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    Kalila 31.05.2017

    Não sabia, minha querida! Ainda bem!
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    Rita PN 31.05.2017

    http://contame-historias.blogs.sapo.pt/a-guerra-nao-cabe-numa-caixa-de-sapatos-26004

    http://contame-historias.blogs.sapo.pt/um-alfaiate-nao-cose-vidas-24312

    http://contame-historias.blogs.sapo.pt/as-valas-22718

    http://contame-historias.blogs.sapo.pt/fomes-23109
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    Kalila 31.05.2017

    Li este post na altura mas não imaginei que estivesses a fazer um trabalho tão exaustivo. Ainda bem, minha querida!
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    Rita PN 31.05.2017

    Sim, esses 4 posts já foram fruto da recolha. É o projecto de um livro. Vamos ver como corre.
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