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Amor às Kuartas

Aqui fala-se de amor às quartas-feiras

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Amor às Kuartas

10
Mai17

A doce Mariana

Kalila

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Horas mortas de sábado à tarde, princípios de noite ainda sem estrelas. Precisamente naquele pedacinho do fim de semana em que pensamos que ainda temos amanhã, em que o corpo exige ser alimentado mas em que a preguiça instalada rejeita panelas ou tachos. Come-se uma sandes? Mexem-se uns ovos? Ou aproveita-se o clima dolente da languidez do momento e dá-se uma volta a fim de comer qualquer coisa num sítio simpático?

Foi escolhida a última hipótese, a única compatível com doces fins de dia de doces fins de semana. A escolha foi da doce Mariana, vestida doce e simplesmente só de jeans e t-shirt mas que achou por bem pôr em cima uma túnica bonita, que aguentaria o fresco da noite e qualquer crítico de moda com que se cruzasse no caminho. Antes de sair ainda se mirou no espelho, comparando o tom dos próprios olhos rasgados com o fundo da túnica de um azul marítimo intenso. Assim de repente, sentiu-se gira e charmosa mesmo sem maquilhagem. Sorriu de si para si e pegou nas chaves.

....................

Até o mar estava doce visto da janela rústica do restaurante-bar. A lua cheia e brilhante refletida na água emprestava-lhe tons vivos, estranhos e ondulantes. A tosta deliciosa e o sumo-maravilha encarregaram-se de completar o quadro daquele bem-estar sonhador de quem está de bem com a vida e se sente feliz, apesar de tudo.

Na mesa do lado, outros olhos azuis estudavam a doce Mariana que já reparara neles. Parecia nórdico, tinha lindos cabelos loiros e, apurando o ouvido, pôde-se constatar que falava inglês com o empregado.

Entretanto, por algum estranho motivo, a musica suave que se ouvia em fundo, de repente irrompeu em brados de tudo menos suavidade. Cabeças viraram-se, bocas sorriram e dois pares de olhos azuis encontraram-se no espanto da situação. O riso bem disposto em ambas as mesas e o mútuo interesse sem nenhum disfarce fez que nem ouvissem as atenciosas desculpas do empregado. O som recatou-se para padrões idênticos aos anteriores, nas outras mesas manteve-se o sorriso, ali, junto daquela janela, e de mesa para mesa, iniciou-se um diálogo doce e brincalhão apesar do inocente inglês da doce Mariana. Daí até se juntarem ambos na mesa dela para melhor ver o mar foi pouco mais que um instante e mal pagaram a conta já se encaminhavam para o terraço sobranceiro ao mar. A brisa era doce, o mar estava calmo e o braço dele veio pousar delicado nos ombros dela.

Que estremeceu  mas sorriu interiormente. Que se deu de mansinho mas com firmeza no olhar. Tinha virado a cabeça e olhavam-se em azul-sonhador, deixaram de se ver depois do contacto ser de corpo inteiro e o beijo acontecer em azul-desejo. Os olhares azuis ferviam de ansiedade e desceram a escada em direção à praia. Parando e beijando-se de dois em dois degraus,  envolveu-os a noite e o luar libertino...

....................

Mariana ainda sorria ao entrar para o duche. Marota e malvada por ter fornecido um contacto falso. Sentia-se bem consigo mesma, não tinha dúvidas de ser ou não imoral, desde que o seu terceiro casamento se ressentia do mesmo que os anteriores: infidelidade velada da outra parte. Os dois primeiros, das mais variadas formas, o caso presente, em contínuas viagens. Demorou a perceber e a aceitar esta terceira derrota, ainda mais velada e ainda mais subtil que todas as outras. Culpou-se e devastou-se de angústias várias, confrontou-o e ameaçou-o de todas as formas. Mas desistiu no meio da paixão comum, que ainda durava, que muito doía, principalmente pela incompreensão do desprendimento.

Seriam os homens incapazes de ser fieis? Ou só os seus? Teriam os homens alguma coisa contra a exclusividade? Ou a falha era sua, que os não prendia ou arrebatava como eles queriam? Desistiu de sofrer, não quis mais divórcios, passou a ser só a doce Mariana sempre que o marido andava em viagem. 

(imagem mapio.net)

 

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