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Amor às Kuartas

Aqui fala-se de amor às quartas-feiras

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Amor às Kuartas

31
Mai17

O banco de pedra debaixo da parreira

Kalila

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Sentada no baloiço tosco do pátio da tia, Cilinha fingia-se no carrossel da festa da aldeia. Ouvia-lhe a música, trazida pelo vento, quase sentia os cavalinhos a subir e a descer. 

A prima Idalina e o namorado Tomás lá estavam no banco de pedra debaixo da parreira. A namorar, como todos diziam, a conversar, pensava Cilinha. Que seria exatamente isso de namorar? Algo complicado de perceber, ainda mais por ter que estar presente, sem entender porquê.

- Cecília! - chamou a tia da janela.

Desceu do baloiço, deu uma corridinha e aceitou a ordem de lavar as mãos na torneira do tanque. Sacudiu-as depois, enxugou o resto ao vestido e aceitou o pão com manteiga que a tia lhe estendeu. Horas do lanche, era preciso comer mesmo sem vontade senão a tia ralhava, depois contava à mãe, depois a mãe ralhava também... O melhor era comer, evitavam-se chatices.

Porque é que os adultos não tinham que lanchar também? A tia ainda perguntou aos namorados se queriam alguma coisa mas nem esperou a resposta, saiu da janela e lá foi para dentro a ajeitar o avental como costumava fazer.

Cilinha foi comer o pão no vai e vem do baloiço. Tomás chamou-a à atenção:

- Cilinha, não se come a andar de baloiço, podes engasgar-te ou ficar mal disposta!

Já sabia isso mas tinha uma certa tendência para contrariar. Como foi o Tomás a dizer, desceu do baloiço e sorriu-lhe. 

Entre o baloiço tosco do pátio da tia e o banco de pedra debaixo da parreira havia uma distância de alguns metros, 15 anos de diferença da prima, um chão antigo de pedra e alguns vasos com plantas.

O Tomás estava "na tropa", a cumprir o serviço militar obrigatório, às vezes aparecia fardado, quase sempre de surpresa, e Cilinha era chamada para andar no baloiço ou para passear com eles. Num dia em que choveu muito, ficaram todos na janela da casa de jantar à espera que parasse. 

O tempo é que não parava. No ano seguinte Cilinha entrou para a escola. Foi aprender muitas coisas numa sala com um crucifixo e uma fotografia do Salazar. Passado um mês o Tomás foi "para fora", para o Ultramar, mais propriamente para a guerra de Angola, uma das "Províncias Ultramarinas", nome este justificado por "Portugal não ter colónias", segundo o que se aprendia na escola.

Mal o Tomás partiu voltou o primo Eduardo, no meio de uma grande festa, foram mortas muitas galinhas, convidaram o "Troncas" da concertina e estava também o Gaspar do saxofone, tocaram juntos e em separado. A razão da festa era o Eduardo "vir bem"...

O Tomás não veio bem, não veio mesmo, o Tomás desapareceu no mato depois de uma emboscada. Nunca apareceu nem vivo nem morto, dele só vieram notícias, avessas umas das outras, nunca se soube nada de concreto. Esperou-se e receou-se sempre um telegrama de condolências do Ministro do Exército mas tal nunca aconteceu. Passado muito tempo, o nome do Tomás apareceu nos jornais numa lista de "desaparecidos em combate" mandada publicar pelo Ministério da Guerra. A mesma informação nunca chegou à família nem à Idalina. 

A mãe doente e debilitada do Tomás não aguentou e morreu. O pai ficou meio louco e envelheceu numa instituição onde acabou por morrer.

Com 72 anos, o rosto da Idalina conserva ainda alguma beleza e uns olhos lindos, de um azul celeste e doce. Vive na casa que foi dos pais, onde já não há baloiço, onde tudo foi transformado e remodelado. Tudo menos o banco de pedra debaixo da parreira. A prima Cecília visita-a sempre que pode. Tomam chá, conversam, planeiam coisas e sentam-se no banco de pedra debaixo da parreira... onde esperam o Tomás... 

(Imagem Wikipédia)

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Monumento aos combatentes

do Ultramar - Belém

                                                                        

 

 

24
Mai17

Um romance na "P"logosfera

Kalila

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Hoje falo na primeira pessoa. Sim, aconteceu comigo! Estão curiosos?

Pois bem, espero não desiludir ninguém! 

Acho que já deixei escapar por aí que estive antes noutra plataforma. Não era melhor nem pior, tinha outros requisitos técnicos, mais opções de escolha de apresentação, era menos intuitiva em termos de manuseamento, e portanto ligeiramente mais complicada, e não havia tanto este hábito delicioso de derreter toda a gente com miminhos, atenções e apreços de toda a ordem. Alguma discussão, sim, em alguns blogs de opinião, mas nada de muito interessante, digamos. O meu blog era mais ou menos diário, tratava de tudo um pouco, eram impressões minhas acerca de quotidianos e situações do momento, em jeito de crónica, não sei se conseguida. Tinha subscritores fixos de visitas assíduas e vários visitantes blogosféricos alternados, com nomes estranhos como Pirolito, Pazdalma, Pasmaceiro, Pancrácio, Pencudo, Penisiano e mais alguns com menos piada mas todos começados pela mesma letra e que não tinham blog com aquela identificação. Raro era o dia em que não me aparecia um deles, por vezes eram dois e iam alternando ao longo da semana, nunca se repetiam em dias consecutivos. Tinham uma característica engraçada, todos eles, a transformação do verbo "estar" no verbo "tar", como se escrevessem sms e não comentários em blogs. 

Um belo dia, ganhei uma nova subscritora, identificada como Paula P, que tratava de moda, culinária, recomendações de produtos e essas coisas corriqueiras, que dizia gostar muito do meu blog, deixava uns comentários gentis, algumas opiniões e começou a ser mais ou menos perseguida por cada um dos Ps, que iam deixando contrapontos sobre os comentários que ela gentilmente deixava no meu blog. Aquilo foi ficando cada vez mais desagradável até que a Paula P desapareceu da Blogosfera.

Curiosamente, alguns dos Ps foram desaparecendo do meu blog, permaneceram alguns, os dos nomes mais engraçados, mas a pouco e pouco e um a um lá tomaram todos um tal chá de sumiço que até os meus outros visitantes estranharam o facto.

O tempo passou, fartei-me do blog das crónicas e criei este, algum tempo depois. Não me perguntem porquê, porque acho que também não sei, um destes dias voltei à mesma plataforma e dei com um texto num blog de contos que contava um romance virtual deveras interessante: estavam lá todos os nomes dos Ps, como fazendo parte de uma seita demoníaca internautica de perseguidores, a protagonista era uma menina de nome a começar por P, acontecia uma enorme confusão até ela chegar à "brilhante" conclusão de que todos os Ps eram uma só pessoa e ambos se perdiam de tanto amor um pelo outro que aquilo era uma paixão como só se vê nos filmes. A história acabava com agradecimentos à minha pessoa, devidamente identificada com o nome que eu tinha no blog antigo, por ter sido no meu blog que se tinham "conhecido", e eu não sei se me ria, se fique feliz, se feche a boca porque já me dói o queixo ou se me belisque para ver se não estou a sonhar!

Bom, optei por contar isto aqui, a ver se atino com a lógica desaparecida numa lista de nomes estranhos a começar por P. Poderia até deixar algum comentário naquele post do blog de contos, mas entre tanta coisa estranha que pode até ser ficção, restam-me ainda laivos de algum discernimento que me aconselham a "apagar a luz e fechar a porta" não vá a "disparatice" vir por aí atrás de mim. 

(imagens Pixabay)

 

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PEDRO PAULO PEREIRA PINTO

PEQUENO PINTOR PORTUGUÊS

PINTA PORTAS, PAREDES, PAINEIS

POR PEQUENO PREÇO

 

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17
Mai17

O poder de uma canção

Kalila

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A indecisão é uma manhã de nevoeiro sem perspetivas de chegada alguma. Pensa-se, repensa-se, torna-se a pensar e a repensar mas faltam as decisões. No caso, era só uma. Romance esmorecido, aquela fase do tempo para pensar em que "um tempo" costuma ser para todo o sempre...! Mas não era isso que ela queria!... Não sabia dizer-lhe que não porque não sentia um não sincero, temia o sim pela criancice dele, por aquela meia loucura por si própria que se estendia a tudo que lhe dizia respeito e não só... Ela certinha e direitinha, organizada, ponderada, a sensatez em pessoa! E ele aéreo, distraído em tudo, sonhador quase irresponsável, meio maluco por si mas sempre ausente em pensamento! Raios! Onde ficava o amor no meio da indecisão?... Seria amor o que ainda sentia? 

O sofá cinza acolhia-lhe a melancolia algo irónica. Talvez por ao fim de vários anos estar a ver de novo o Festival da Eurovisão... Não vira o nacional mas apaixonara-se pela canção, um doce cantado com carinho, um amor de canção que ia direitinha ao coração!... Tanto mais pela recomendação dele para ouvi-la...

As luzes, os fogos, as cores, as musicas cansativas, cenários estranhos com fumos e objetos inusitados alusivos às letras, uma ou outra canção um nadinha mais interessante...

Ai que seca! Quando canta o rapaz? Tudo aquilo lhe era já quase desagradável talvez pela falta do hábito... ou do conteúdo... ou do interesse... ou da qualidade...

Uma gota de sono caía-lhe já pelos olhos quando ouviu que faltavam duas... Reacendeu a atenção, sorriu de si para si a pensar como matar o tempo que faltava... 

E quando o Salvador finalmente cantou:

 

"Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi para te amar.
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada para dar.

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer.
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender.

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez devagarinho possas voltar a aprender.

Se o teu coração não quiser ceder,
Não sentir paixão, não quiser sofrer,
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois"

 

Oh!

Até aí ainda não tinha retido bem a letra, naquele instante absorveu-a toda quase de repente! 

Ainda demorou uns segundos, enquanto tentava perceber quanto a canção tocava a todos pela candura, sentiu o entusiasmo do público e dos apresentadores portugueses, aquele clima intimista em que tinha sido apresentada, diferente de todas as outras... Mas o ar doce e apaixonado do Salvador, meio tonto e meio aéreo é que a fizeram levantar, procurar o telefone e...

Do outro lado:

 - Ouviste a canção?... 

E ela disse que sim... A tudo!

(imagem Pixabay)

 

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10
Mai17

A doce Mariana

Kalila

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Horas mortas de sábado à tarde, princípios de noite ainda sem estrelas. Precisamente naquele pedacinho do fim de semana em que pensamos que ainda temos amanhã, em que o corpo exige ser alimentado mas em que a preguiça instalada rejeita panelas ou tachos. Come-se uma sandes? Mexem-se uns ovos? Ou aproveita-se o clima dolente da languidez do momento e dá-se uma volta a fim de comer qualquer coisa num sítio simpático?

Foi escolhida a última hipótese, a única compatível com doces fins de dia de doces fins de semana. A escolha foi da doce Mariana, vestida doce e simplesmente só de jeans e t-shirt mas que achou por bem pôr em cima uma túnica bonita, que aguentaria o fresco da noite e qualquer crítico de moda com que se cruzasse no caminho. Antes de sair ainda se mirou no espelho, comparando o tom dos próprios olhos rasgados com o fundo da túnica de um azul marítimo intenso. Assim de repente, sentiu-se gira e charmosa mesmo sem maquilhagem. Sorriu de si para si e pegou nas chaves.

....................

Até o mar estava doce visto da janela rústica do restaurante-bar. A lua cheia e brilhante refletida na água emprestava-lhe tons vivos, estranhos e ondulantes. A tosta deliciosa e o sumo-maravilha encarregaram-se de completar o quadro daquele bem-estar sonhador de quem está de bem com a vida e se sente feliz, apesar de tudo.

Na mesa do lado, outros olhos azuis estudavam a doce Mariana que já reparara neles. Parecia nórdico, tinha lindos cabelos loiros e, apurando o ouvido, pôde-se constatar que falava inglês com o empregado.

Entretanto, por algum estranho motivo, a musica suave que se ouvia em fundo, de repente irrompeu em brados de tudo menos suavidade. Cabeças viraram-se, bocas sorriram e dois pares de olhos azuis encontraram-se no espanto da situação. O riso bem disposto em ambas as mesas e o mútuo interesse sem nenhum disfarce fez que nem ouvissem as atenciosas desculpas do empregado. O som recatou-se para padrões idênticos aos anteriores, nas outras mesas manteve-se o sorriso, ali, junto daquela janela, e de mesa para mesa, iniciou-se um diálogo doce e brincalhão apesar do inocente inglês da doce Mariana. Daí até se juntarem ambos na mesa dela para melhor ver o mar foi pouco mais que um instante e mal pagaram a conta já se encaminhavam para o terraço sobranceiro ao mar. A brisa era doce, o mar estava calmo e o braço dele veio pousar delicado nos ombros dela.

Que estremeceu  mas sorriu interiormente. Que se deu de mansinho mas com firmeza no olhar. Tinha virado a cabeça e olhavam-se em azul-sonhador, deixaram de se ver depois do contacto ser de corpo inteiro e o beijo acontecer em azul-desejo. Os olhares azuis ferviam de ansiedade e desceram a escada em direção à praia. Parando e beijando-se de dois em dois degraus,  envolveu-os a noite e o luar libertino...

....................

Mariana ainda sorria ao entrar para o duche. Marota e malvada por ter fornecido um contacto falso. Sentia-se bem consigo mesma, não tinha dúvidas de ser ou não imoral, desde que o seu terceiro casamento se ressentia do mesmo que os anteriores: infidelidade velada da outra parte. Os dois primeiros, das mais variadas formas, o caso presente, em contínuas viagens. Demorou a perceber e a aceitar esta terceira derrota, ainda mais velada e ainda mais subtil que todas as outras. Culpou-se e devastou-se de angústias várias, confrontou-o e ameaçou-o de todas as formas. Mas desistiu no meio da paixão comum, que ainda durava, que muito doía, principalmente pela incompreensão do desprendimento.

Seriam os homens incapazes de ser fieis? Ou só os seus? Teriam os homens alguma coisa contra a exclusividade? Ou a falha era sua, que os não prendia ou arrebatava como eles queriam? Desistiu de sofrer, não quis mais divórcios, passou a ser só a doce Mariana sempre que o marido andava em viagem. 

(imagem mapio.net)

 

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03
Mai17

O Kiko

Kalila

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Olá. Eu sou o Kiko. Eu era pequenino, lindo e fofinho quando o Mário me ofereceu à Rute... Mas eu cresci! (Infelizmente, na razão inversa do amor deles...)

A Rute derreteu-se toda comigo e com o próprio Mário, receber um cãozinho de prenda do namorado foi um acontecimento! Tratou de tudo o que era necessário como se eu fosse um príncipe e senti-me tão amado e tão querido como o próprio Mário! Lá fui crescendo no apartamento dela, que mal chegava para nós dois, sempre sozinho de dia, mas com a companhia dela todas as noites. De vez em quando éramos os três mas depois ficávamos tristes, a Rute e eu, a vermos o Mário voltar para casa... 

Com tanta tristeza nas despedidas, um dia eles resolveram irmos todos para casa do Mário. Foi uma festa! A casa era grande, podíamos correr em várias direções, não sei porquê eles não corriam, mas eu fazia-o pelos três! Os passeios comigo na rua eram uma alegria, íamos sempre todos, até ao dia em que, não sei porquê, o Mário ficou no sofá a ver televisão. Eu fiquei triste, a Rute ficou triste, o passeio não teve graça e, dessa vez, a alegria foi voltarmos para casa para estarmos todos juntos outra vez.

Também não sei porque passou a ser só o Mário a passear comigo e ainda menos percebi quando a Rute voltou para o apartamento dela e deixou-nos aos dois.

Passado um tempo, fomos visitá-la e lá ficámos até de manhã. Mas a minha caminha estava na casa do Mário, aquela casa era muito pequena para eu poder andar à vontade, ninguém se lembrou de que eu tinha que ir à rua e, com o nervoso da situação, aconteceu-me um percalço, daqueles muito aborrecidos...

Quando eles se levantaram, zangaram-se os dois comigo e também um com o outro... 

Agora estou na casa do Mário. Tenho muitas saudades da Rute e de estarmos juntos os três...

Mas eu sou só um cão e os humanos são estranhos... (Eu devia ter sido só uma caixa de bombons!) 

(imagem superior: PIxabay)

 

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26
Abr17

A quinta

Kalila

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Uma flor delicada ondeava ao vento espreitando as visitas por cima do muro. Duvidava-se que a campainha tocasse algures, tal era o ar ferrugento do dispositivo. Mas tocou. E apareceu um sujeito de meia idade que abriu os portões. 

Os sorrisos da praxe depois de estacionar, os portões encerrados de novo, o sujeito de meia idade quase aos pulinhos para ser encantador, um cão rafeiro de ar simpático a cheirar os sapatos e estava perspetivada mais uma linha da lista de quintas para o casamento. Era a única que não tinha fotos na publicidade, a não ser daquela entrada algo majestosa, por isso era um verdadeiro mistério para os noivinhos. Talvez até fosse esse o motivo do menor enfado do Pedro. Até aí tinha visto tudo quase contrariado, sem grande atenção a nada, apenas presente porque a isso se sentia obrigado. Era o seu casamento mas porque raio tinha que dividir a sua já tão pouca paciência por tantas opções de escolha?

Nada a fazer! Eliana era mesmo assim em tudo, inconformada, insatisfeita, extremamente difícil de contentar, sempre múltipla de possibilidades e alternativas.

O senhor da quinta revezava-se de gentilezas e objetividades, com um álbum enorme de casamentos e festas ali efetivados enquanto ia mostrando as salas, as eventuais decorações, os pátios, os jardins, uma panóplia de possibilidades de acompanhamentos musicais e uma imensidade de menus, tipos de loiça e outras especificidades.

Eliana ia tentando absorver toda a informação, Pedro perdera-se já numa das salas que mantinha ainda a decoração do último evento: balões, borboletas e pássaros de papel a saírem de algo a imitar fogo. Achou estranho, perguntou:

- Foi uma festa infantil?

O senhor da quinta desequilibrou-se no meio daquela espécie de saltitar, rodou sobre um dos calcanhares, puxou a porta da sala, tossicou, levou a mão aos cabelos, coçou o queixo e tentando sorrir naturalmente disse:

- Não, não fazemos festas infantis. Foi outro tipo de comemoração... um divórcio. Fomos inovadores nesta área e temos tido muita procura...  

(imagem Pixabay)

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19
Abr17

Amor e uma cabana

Kalila

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Não era bem cabana, nem casinha, nem barraca, deve ter sido um abrigo de lenha noutros tempos. A casa ruíra quase toda, os muros tombaram, a natureza foi tomando conta de tudo, restou de pé o abrigo, atapetado de pedra, coberto de telha antiga. A ruína de uma parede da casa era um dos lados, do outro pedra solta, atrás o que restava do muro, na frente uma porta e uma janela sem as mesmas. 

Alberto costumava usar-lhe a sombra no verão depois da caminhada desde a aldeia de baixo. Uma árvore frondosa ajudava à frescura do lugar.

Ana conhecera-a no meio de uma chuvada inoportuna que estragou o seu passeio desde a aldeia de cima.

O lugar abrigava a calma do abandono em ruínas. Restos de canteiros, capoeiras e um tanque antigo de lavar roupa ajudavam a sonhar com passados românticos de família feliz, talvez remediada, voltada para o trabalho da terra, talvez mesmo rica, voltada para o deslumbre da paisagem.

Por algum motivo, Alberto e Ana nunca se encontravam. Passavam por ali, desfrutavam da vista, sentavam-se ou não no abrigo, sempre em dias ou horas diferentes. As aldeias dos dois, quase à mesma distância dali, guardavam o segredo do sítio. Na aldeia de baixo dizia-se que os proprietários tinham sucumbido todos num incêndio. Na aldeia de cima falava-se de outros eventos, como maleitas de saúde dizimadoras, ataques de lobos ferozes e uma derrocada, tudo misturado e dramatizado, bem ao gosto popular. Ao certo ninguém sabia de nada, nem tão pouco se alguém por ali tinha perecido ou simplesmente rumado a outras paragens.

Conhecida como "Ana da Azenha" por a sua casa na beira do rio apresentar vestígios de uma, Ana tinha sido professora primária noutra aldeia mais distante, onde casou, enviuvou em sete anos e nunca chegou a ser mãe.

Conhecido como "Beto da Alice", nome da sua mãe, Alberto era um solitário por opção, dedicado aos livros e à pintura depois de um casamento falhado.

Ambos aposentados do estado, ele de uma repartição pública na sede do concelho, não se conheciam a não ser de vista em eventos populares numa ou noutra aldeia. Nunca falaram, nenhum sabia o nome do outro, eram próximos em idade mas distantes na forma de ver o mundo. Ela dedicada a artes manuais que lhe deixavam a cabeça liberta, ele à pintura e à escrita, sendo a pintura a sua principal forma de expressão e mesmo de rendimento, enquanto a escrita apenas o distraía. Em comum tinham o gosto pelas caminhadas, aqueles passeios magníficos pela natureza que os levavam sempre até aquele lugar perdido no tempo e desencontrado no tempo dos dois.

Ambos reparavam nos vestígios que alguém deixava: o ajeitar dos toros de lenha velha para servir de acento, umas pedrinhas em pirâmide no ex-parapeito da janela e algo curioso como o resto de uma jarra antiga repleta de flores do campo, devidamente atestada de água, sobre uma pedra quadrada, que devia ter sido um banco, colada a uma das paredes meio caídas da antiga casa.

O que de início foi só coincidência e acasos engraçados, transformou-se pouco a pouco em algo mais. Nenhum sabia quem era o outro que por ali passava ou ficava. Ambos começaram a ficar curiosos com aquela presença misteriosa. Ana sonhadora com uma eventual amiga de gostos também ruinosos e campestres, Alberto antevendo uma jovem linda, sonho de qualquer romântico da sua proveta idade. Imaginava-a a subir o morro, maravilhosa e bela, de cabelo ao vento, num vestido leve e esvoaçante... Chegado a casa ria-se de si próprio e daquele sonho. Por mais que o espelho lhe dissesse que continuava a ser um homem interessante para o sexo oposto a visão sonhadora de uma menina bonita, qual anjo dos céus, a frequentar umas ruínas no meio do campo e do nada era já demasiado delirante para ainda ansiar conhece-la e, quiçá, conquista-la! Meninas bonitas têm mais o que fazer do que andar pelo campo! Seria um homem? Algum "entradito" como ele, sem muito que fazer? Não, a visão feminina e juvenil era muito mais inspiradora e alegre só por si! Depois ainda vinha a sua arte figurativa em que a menina bonita começou a ter rosto, ora maravilhoso e celestial, ora sorridente e algo lascivo. Foi acrescentando a figura feminina às suas paisagens, sempre etérea, divina e preciosa... Escreveu também sobre ela, sempre na base do mistério, como se mesmo fisicamente fosse alguém de aura espiritual...

Ana não sonhava tanto, apenas imaginava uma outra mulher a deambular por ali, alguma maluca como ela, farta de cidades, vilas e aldeias, feliz só assim, consigo própria, a andar pelo campo.

Um dia Alberto deixou um poema preso com uma pedra no acento de toros. Falava do mistério daquela presença, sugeria um encontro quase delirante de "um sonho ser real" e outras acrobacias poéticas. Estava escrito à mão, numa caligrafia exemplar, e na assinatura acrescentou o nascimento: 1947. Por algum motivo se sentiu impelido a isso, não sabia explicar, foi algo que lhe pareceu natural na altura. Assustar-se-ia a sua "menina" com tanta franqueza? Ou riria de um velho que lhe deixava poemas? Mas se tudo era um sonho e até brincadeira porque não alimenta-lo com mais sorrisos?

Foi a vez de Ana sonhar e imaginar e sucumbir ao mistério quando encontrou o poema. Havia uma sugestão de data e hora do dia, olhou para o relógio e faltava pouco tempo. Que fazer? Fugir dali com o susto de alguma falsa esperança? Ficar e conhecer alguém que pouco lhe importava quem fosse até aí? Experimentar o medo de poder ser alguém demente, tarado ou mesmo criminoso?

Mas não teve tempo de pensar, a expectativa de Alberto impeliu-o para o local ainda antes da hora. Ana viu-o a subir o morro, quase apavorada. Que fazer, assim de repente? Precisava que algo lhe iluminasse o espírito, lhe levasse o medo e lhe tirasse as dúvidas...

Já não havia hipótese, ele já a vira!

Os passos dele desaceleraram quase automaticamente, via uma senhora de idade (da sua idade!), à distancia parecia elegante, talvez bonita, vestida como quem passeia pelo campo... E o vestido vaporoso? Os cabelos compridos? E a juventude? Onde estava a sua menina misteriosa? O que é que aquela velha tinha feito à sua menina? Seria a bruxa má? Apeteceu-lhe voltar para trás, tornar a perseguir o sonho mas no sentido inverso, para bem longe dali...

Ana conseguiu esboçar um sorriso, ainda de poema na mão, enquanto ele se aproximava cada vez mais devagar. Não tinha nenhum ar medonho, aquele Alberto que afinal não era mulher, era até muito bem apessoado para não dizer lindo, que não fica bem a uma senhora... Tão bonito, tão interessado e ainda por cima poeta?

Quer dizer, interessado, só no poema, parece que ao vivo o interesse fugira-lhe para algum lugar! Ana tinha já vontade de rir da situação. Conteve-se a custo, tentou manter a pose da gentileza mas estava prestes a desatar a rir. Reconheceu-o vagamente de o ver na região e talvez por lhe conhecer a expressão habitual podia perceber que estava desolado!

Acabou por ser ela quem primeiro falou e desanuviou o ambiente com uma gargalhada. Apresentaram-se, riram-se ambos com a desilusão dele. Ela ainda o "picou" com um "lamento não ser mais bonita!" no meio de gargalhadas e ele foi cortês, disse-lhe que era linda, encantadora, mesmo, não tinha a ver com isso, "apenas com um sonho de um velho tolo, que não sabe atualizar a imaginação conforme a sua própria idade". Riram-se ambos, ela com mais gosto. Ficaram a conversar nos toros de lenha velha, sentiam-se amigos, por certo nunca seriam nada mais do que isso mas todos os futuros são sempre uma grande incógnita, mesmo que a juventude já tenha partido há muito.

(imagem rgbstock.es) 

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