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Amor às Kuartas

Aqui fala-se de amor às quartas-feiras

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Amor às Kuartas

29
Mar17

Na minha praia...

Kalila

 

 

gaivota pixabay.jpg

 

 

Vocês ainda não sabem mas eu tenho uma praia. É um sítio onde vou encontrar-me comigo própria, que frequento desde tenra idade, batida por nortadas sem dó nem piedade, com um mar sempre revolto e onde praticamente nunca se consegue nadar. É minha porque vou lá de Verão e de Inverno, faça frio, chuva ou nortada, esteja repleta de areia ou só de rochas composta, quando o maroto do mar se lembra de a despir no meio de alguma das suas fúrias. Já lá apanhei verdadeiros sustos de morte como uma onda gigante que me deixou espalmada e estarrecida contra a arriba de 50 metros de altura, um surfista desmaiado a quem não pude valer senão ligando para o 112, único número para onde se consegue ligar de lá, e um barquito encalhado nas rochas com uma criança dentro e sem mais ninguém por perto. Mas o meu amor por aquela praia é tão incondicional que até a consigo dividir com muitos mais durante todo o Verão. Há alguma ciumeira, sim, ah mas no Inverno partilho-a só com os pescadores e as gaivotas! 

As gaivotas da zona são as comuns "argênteas", presentes em toda a nossa costa, são aquelas de asas cinzentas, patas e bicos amarelos, elegantérrimas no voo, excelentes na arte da pescaria e exímias na de roubar a comida alheia. 

Numa bela tarde escaldante andava eu a tentar que o mar me refrescasse quando o meu saco foi assaltado por um par de gaivotas. Vim de lá a correr e a dar aos braços, com toda a gente a rir-se de mim e da situação, mas o único resultado foi elas fugirem com a minha sandes e o meu pastel de bacalhau que esperavam no topo do saco que eu os comesse e não por serem roubados. Piúrsa com a ocorrência, tratei de fazer a mala e desandar dali para o bar da praia a fim de matar a minha fome e na certeza de que se encontrasse as gaivotas pelo caminho era muito bem capaz de lhes ditar a merecida sentença de morte. 

A esplanada estava repleta de gente, para mim só havia uma mesa praticamente nas traseiras. Sentei-me, contrariada com tudo e com todos, amaldiçoando até as gaivotas que grasnavam na encosta e que estariam presumivelmente inocentes.

Enquanto esperava por ser atendida algo me chamou a atenção a uns 20 metros de onde me encontrava: um saquinho de papel castanho igualzinho ao que continha o meu malogrado lanchinho!

Seria? Pus-me em pé de um salto, esqueci a fome, abandonei a mesa que alguém logo ocupou e imediatamente comecei a tratar da investigação. Ou seja, disfarçadamente agarrei no saco de papel e como uma qualquer exemplar cidadã tratei de o colocar no lixão depois de ter constatado de que se tratava do invólucro da ocorrência.

Ora bem, acho que foi por essa altura que dei comigo a sorrir de mim própria. E devo ter sorrido até à gaivota que passou por mim com um bocado de pão no bico. E, provavelmente, até à que deixou cair um pedaço de pastel quase na minha cabeça. Dirigiam-se para nascente, por cima do riacho,  naquele voo elegante e planado que tão bem lhes conhecemos. Já agora, e para quem não sabe, deixem-me dizer que toda aquela elegância se deve à envergadura das asas que lhes permite esbanjarem charme mesmo depois de um assalto.

À beira do riacho o caminho é torto e tortuoso, cheio de pedregulhos, seixos rolados e ervas invasoras, tudo muito pouco amigo dos meus chinelos de praia. Mas a curiosidade venceu-me o desconforto e um ruído estranho mas bem audível espevitou ainda mais a minha bisbilhotice. Mesmo meia zangada com elas só me vinham à lembrança momentos e até horas que já tinha passado a contemplar a espécie, nos seus voos poéticos e inspiradores, na sua luta pela subsistência na faina do mar, ladina e matreira, e de como sempre me tinha escapado para onde iriam elas quando deixavam a praia à noitinha.

O barulho foi ficando mais intenso quando as vi pousar lá longe, atrás dum ressalto do terreno. Dei uma corridinha, conforme os pedregulhos deixaram, e quando o ressalto deixou de me atrapalhar a vista deparou-se-me um espetáculo inesquecível. Numa espécie de pequeno vale, por certo um espraianço de outrora daquele riacho, estavam dezenas de gaivotinhas ainda castanhas, umas já desenvoltas, outras ainda nos ninhos acompanhadas das mães, numa imensa colónia barulhenta e em movimento de que achei por bem não me aproximar muito para não perturbar. As gaivotas que me precediam e que tinham perpetrado o assalto ao meu lanche tinham-se encarregado de abastecer dois dos ninhos e respetivas mamãs no meio de imenso carinho e ternura com as próprias e alguns piparotes de asas com os filhotes pequeninos.    

Fiquei atónita, enternecida e quase capaz de lhes pedir perdão por me ter zangado. Mais tarde descobri que elas são monogâmicas, acasalam para toda a vida, e não mais me esqueci do carinho que presenciei durante a entrega daquelas oferendas, atrevidas e inusitadas, mas para sempre perdoadas.

(imagem Pixabay)

 

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